quinta-feira, 4 de junho de 2020

ÓDIO DO AMOR

Toda noite eu tento escrever estrofes belas.
E me enveneno do sentimento mau por ti
Numa tentativa tão vã de de sufocar minha paixão.
Toda noite eu durmo na esperança de não despertar.

Toda manhã me desejo recluir e ficar do mundo bem distante
E fazer do meu quarto um mundo meu, impenetrável .
Toda tarde eu quero nada além que o tempo voe
E tu me sumas da memória qual neblina fugidia.

Ah, bem sei que  no futuro não serás mais que a memória
Vaga e simples de uma coisa chã, pequena, inexpressiva
Que me fará sentir tão tolo pela dor que hoje me mata.

2013


A MORENA AO CREPÚSCULO

Quando a morena caminha na rua de terra,
cabelos pretinhos aos ombros marrons,
dá uma vontade tão grande d'agente cantar.

Quando o decote da bela desponta ao crepúsculo
de ceú vermelhinho, cigarra a cantar,
dá uma vontade danada d'a gente pecar.

Quando ela baixa a cabeça, olhando pro chão,
parece tão triste, tão frágil, suave
d'a gente a querer proteger e guardar.

Quando essa moça se afasta, se perde no longe,
deixa no peito da gente uma certa saudade,
como viesse e dissesse: "só volto amanhã."


A SEDUTORA

Essa bela é sedutora,
tem os olhos de langor,
mas por quantos seus olhares
se derretem de desejo?

Essa bela tem a voz
delicada de uma musa,
mas por quantos cantarola
mil cantigas de paixão?

Essa bela tem os passos
leves, brandos de gazela,
mas com quantos ela dança
os seus ritmos febris?

Seu semblante é tão angélico,
me consome em comoção, 
mas por quantos ela reza
suplicantes orações?

Essa moça  faz poemas
de um lirismo sem igual,
mas pra quantos ela escreve
seus mais lindos madrigais?




NÃO POR ELA

Que te encharques de aguardente
e desmaies nas bodegas, 
mas não seja então por ela,
a quem músicos mambembes
negam mesmo duas notas.

Que pranteies cachoeiras
e te afogues em teus prantos,
mas não seja então por ela,
que sequer merece gota
de suor ou de coriza.

Que te atires de uma torre,
te espatifes na calçada,
mas não seja então por ela,
por quem nem os indigentes 
se dariam mordiscadas.

Que te sintas desgraçado,
que te arrastes pela vida,
mas não seja então por ela,
tão sem viço e tão pequena,
parecendo inexistente.


SERÁ?

Lá vem ela, viçosa, bonita.
Desponta, sorrindo, na esquina.
Trará para mim a eperança?
Trará pra amanhã mil tormentos?
Será um turbilhão de alegrias?
Fará que eu lamente nos dias?
Será uma leal dedicada?
Será indiferente, infiel?
Será um paraíso romântico?
Será como o Inferno penoso?
Trará mil canções que arrebatam?
Trará mil queixumes e tédios?
virá me salvar da agonia?
Fará que eu deseje morrer?


QUERER IMENSO

Do teu corpo percorrer cada milímetro,
Atritar a minha pele em tua pele
E beijar-te como fosse o momento eternizar
E entrar em tua alma nesse ato.

Comungar com teus desejos meus desejos,
Viajar por entre os astros no teu corpo,
Nos fazermos um só corpo, uma só alma,
Na magia da volúpia sem tamanho.

Eu te quero como a brisa em primavera,
Como ao sol que aquece as tardes nos invernos.
Tu te tornas minha assim como meus órgãos
E eu te amo como à vida que retumba no meu peito.



AMOR PERDIDO

Cada vez em que a encontrei,
nas noitinhas mais bonitas,
não notei que ela cantava,
dentro d'alma, de alegria.

Cada vez em que a apertei
nos meus braços, entre juras,
reparei como se dava,
mas não vi que era tão minha.

Quando quis cair no mundo
e me dei à despedida,
não notei que ela chorava,
não olhei quanto sofria.

Todo o tempo em que eu a tive
ao meu lado, nos meus dias,
eu nem vi que ela me amava,
que era pura poesia.

Quando o mundo me abateu,
e eu busquei o seu abrigo,
percebi  que nos seus olhos
já não tinha  melodia.
Entendi que o tempo andara,
me dei conta que a perdera,
que não mais eu a teria.

2013