sexta-feira, 5 de junho de 2020

SE EU SOUBESSE



Há coisas que em nossa vida
só trazem dor e tristeza:
soubesse, passava ao largo,
bem longe dos teus encantos.

Devia não ter provado
da água que tu me deste,
do almoço que preparaste,
do vinho que me serviste,
dos versos que me fizeste.

Devia não ter gozado
dos beijos que me beijaste,
do corpo que tu me abriste,
dos olhos com que me olhaste,
delírios que me causaste. 

Hoje, sozinho me vejo
mendigo de algum afeto,
saudoso de nossos dias,
frangalho do que era ontem,
um morto vagando em vida.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

IMAGENS REFLETIDAS

Que enigma esconde esse teu rosto
num semblante perene de quem brinca
e se ri do mundo tão injusto e caricato?

Se os segredos não desvendo,
te conheço a sede, a sanha,
quanto ardem teus desejos
e me vejo um tanto pasmo,
absorto, até encantado
em notar de ti brotando
vida, ardor em profusão.

Quais quimeras te incendeiam?
Quais loucuras tu desejas?
Que aventuras te fascinam
nessa alma irrequieta?

Encantado, te contemplo,
porque entendo que há em ti
o quem em mim sinto brincando
desde os tempos mais remotos.

Quanto tens de mim em ti?
O que somos? Semelhanças
abundantes, incontáveis?
Ou então, se nos olhamos,
O que vemos? Um espelho?

Tua alma dança em mim?
Minha alma dança em ti?
Assim somos um só ser,
divididos e libertos
a voar pelo universo.

2014

NÃO CONTE NADA

Não conte, não, dos espinhos lá de fora,
Se eu apenas quero lhe sentir o rosto quente
Repousando no meu peito, que te acolhe,
E os lábios que se amassam, ávidos, nos meus.

Não conte, não, qualquer vivência adquirida,
Que eu quero agora é esquecer sua partida
E a prostração que sua ausência trouxe a mim.

Faça de conta que o ontem nunca houve,
Que este momento é tudo, tudo quanto existe
E que nunca, nunca mais vai terminar.

Não conte, não, dos seus amores fracassados,
Não fale nada de aventuras mal vividas,
Não diga nada, não, sobre os seus dias,
Pra que eu não abra a porta e aponte a rua
E diga: "A volta dói bem mais do que a partida".

VOCÊ, PRIMAVERA

Não fique, venha: como quero que me venha!
Tenho um paraíso em seus afagos,
Na sua voz, um cantar de renascença,
Na presença, um viver em plena chama,
No seu corpo, um delírio de queimar
E na ausência, um desejo de calar.

Venha à tarde como brisa vespertina,
Venha à noite como um céu de poesia
E se vista em transparências azuladas,
E se abrace ao meu corpo desejoso,
E não pense, não fale, apenas dance
E arda assim como se fora um sol candente.

Venha\comigo olhar a vida da janela
E dizer que a primavera se anuncia no horizonte
E, inda mais, já chegou e se eterniza
Com as flores coloridas, suas cores abundantes,
Sua vida em festa acesa, alegria que retumba,
Muito embora eu saiba, a primavera, ela é você.



ALUMBRAMENTO

Que feitiço tem teus olhos,
que eu me rendo e me dissolvo
no ato simples de te olhar?

Que cantiga tem teu riso,
que me alumbra simplesmente
e me induz a viajar?

Conta a mim que primaveras
que tu enxergas em paragens
muito além dos horizontes?

Fala a mim dessa alegria
que reluz em teu semblante
e se espalha pelo ar.

Que magia tem teu corpo,
que me aprazo dos teus cheiros,
que enlouqueço ao te tocar?

Os teus fluidos são licores, 
sou cativo dos teus braços,
me embriago em teu calor.

O poema que te faço
é suave como fêmea,
é mulher como tu és.

É tão macho como o bruto
que te aperta com pujança
e te adentra com furor.

Os meus versos te transformam
numa parte de mim mesmo
e a nós dois  numa canção.




Diga que aguarda sequiosa a chegada minha à sua casa,
E eu lhe farei os poemas mais emocionados e bonitos que consiga porventura:
Escreverei os versos que denotem o mais infinito e absoluto enlevamento.
Traduzirei com perfeição os sentimentos que em meu peito batem como um turbilhão
E me farei o seu poeta, devotado e tão zeloso como o trovador  a dar o próprio sangue pala [amada:
Serei o exaltado cantador, o arauto a anunciar aos quatro cantos a paixão que me arrebata.
Serei leve e delicado, sutil qual sons de flauta ou plácido regato cristalino
Nos afagos e palavras que reservo para a hora extasiante de encontrá-la.

2013

VERSOS À TUA NUDEZ

Tua nudez é coisa linda
como a fauna e como a flora,
como campos coloridos,
como orgasmo, amor, paixão.

Tua nudez enfeitiçante
inquieta meus instintos,
me incandesce, me fogueia...
Ah, que nádegas perfeitas!
São poema de volúpia,
tão viçosas, juvenis!

Ah, desejo de tocar-te,
te lamber o copo inteiro,
te adentrar as cavidades
com meu falo teso e quente!

Fazer ode às tuas formas,
ao teu rosto, à tua pele,
aos teus lábios e olhos vivos,
num poema de luxúria,
fogo em forma de canção.


ÓDIO DO AMOR

Toda noite eu tento escrever estrofes belas.
E me enveneno do sentimento mau por ti
Numa tentativa tão vã de de sufocar minha paixão.
Toda noite eu durmo na esperança de não despertar.

Toda manhã me desejo recluir e ficar do mundo bem distante
E fazer do meu quarto um mundo meu, impenetrável .
Toda tarde eu quero nada além que o tempo voe
E tu me sumas da memória qual neblina fugidia.

Ah, bem sei que  no futuro não serás mais que a memória
Vaga e simples de uma coisa chã, pequena, inexpressiva
Que me fará sentir tão tolo pela dor que hoje me mata.

2013


A MORENA AO CREPÚSCULO

Quando a morena caminha na rua de terra,
cabelos pretinhos aos ombros marrons,
dá uma vontade tão grande d'agente cantar.

Quando o decote da bela desponta ao crepúsculo
de ceú vermelhinho, cigarra a cantar,
dá uma vontade danada d'a gente pecar.

Quando ela baixa a cabeça, olhando pro chão,
parece tão triste, tão frágil, suave
d'a gente a querer proteger e guardar.

Quando essa moça se afasta, se perde no longe,
deixa no peito da gente uma certa saudade,
como viesse e dissesse: "só volto amanhã."


A SEDUTORA

Essa bela é sedutora,
tem os olhos de langor,
mas por quantos seus olhares
se derretem de desejo?

Essa bela tem a voz
delicada de uma musa,
mas por quantos cantarola
mil cantigas de paixão?

Essa bela tem os passos
leves, brandos de gazela,
mas com quantos ela dança
os seus ritmos febris?

Seu semblante é tão angélico,
me consome em comoção, 
mas por quantos ela reza
suplicantes orações?

Essa moça  faz poemas
de um lirismo sem igual,
mas pra quantos ela escreve
seus mais lindos madrigais?




NÃO POR ELA

Que te encharques de aguardente
e desmaies nas bodegas, 
mas não seja então por ela,
a quem músicos mambembes
negam mesmo duas notas.

Que pranteies cachoeiras
e te afogues em teus prantos,
mas não seja então por ela,
que sequer merece gota
de suor ou de coriza.

Que te atires de uma torre,
te espatifes na calçada,
mas não seja então por ela,
por quem nem os indigentes 
se dariam mordiscadas.

Que te sintas desgraçado,
que te arrastes pela vida,
mas não seja então por ela,
tão sem viço e tão pequena,
parecendo inexistente.


SERÁ?

Lá vem ela, viçosa, bonita.
Desponta, sorrindo, na esquina.
Trará para mim a eperança?
Trará pra amanhã mil tormentos?
Será um turbilhão de alegrias?
Fará que eu lamente nos dias?
Será uma leal dedicada?
Será indiferente, infiel?
Será um paraíso romântico?
Será como o Inferno penoso?
Trará mil canções que arrebatam?
Trará mil queixumes e tédios?
virá me salvar da agonia?
Fará que eu deseje morrer?


QUERER IMENSO

Do teu corpo percorrer cada milímetro,
Atritar a minha pele em tua pele
E beijar-te como fosse o momento eternizar
E entrar em tua alma nesse ato.

Comungar com teus desejos meus desejos,
Viajar por entre os astros no teu corpo,
Nos fazermos um só corpo, uma só alma,
Na magia da volúpia sem tamanho.

Eu te quero como a brisa em primavera,
Como ao sol que aquece as tardes nos invernos.
Tu te tornas minha assim como meus órgãos
E eu te amo como à vida que retumba no meu peito.



AMOR PERDIDO

Cada vez em que a encontrei,
nas noitinhas mais bonitas,
não notei que ela cantava,
dentro d'alma, de alegria.

Cada vez em que a apertei
nos meus braços, entre juras,
reparei como se dava,
mas não vi que era tão minha.

Quando quis cair no mundo
e me dei à despedida,
não notei que ela chorava,
não olhei quanto sofria.

Todo o tempo em que eu a tive
ao meu lado, nos meus dias,
eu nem vi que ela me amava,
que era pura poesia.

Quando o mundo me abateu,
e eu busquei o seu abrigo,
percebi  que nos seus olhos
já não tinha  melodia.
Entendi que o tempo andara,
me dei conta que a perdera,
que não mais eu a teria.

2013


CONSTANTE PRIMAVERA

Por você farei uma canção bonita,
Lamberei cada palavra que me diga
Qual sorvesse o vinho embriagante
Que consome a calma e o meu juízo.

Viverei sempre as manhãs como festivas,
Toda tarde será como folia,
Toda noite, uma entrega à poesia,
Madrugadas, puro êxtase dos dias.

Deixarei o seu rosto na memória,
Permanente como fosse uma pintura,
Seu sorriso me será qual fosse a vista
Dos cenários mais sagrados do universo.

Viverei na leveza assim de um passarinho
E o abrigo encontrarei nesses seus braços,
Tão feliz qual se tristeza nunca houvera,
Qual vivesse o ano inteiro a primavera.


2013

DE QUE VALE...?

De que vale a emoção destes meus olhos,
Tanto enlevo estampado no meu rosto,
As palavras fagueiras e tão ternas,
O querê-la flagrante nos meus atos...?

De que vale a quentura dos meus gestos
E a tamanha alegria só por vê-la...?
De que vale o me-dar no meu  semblante
E o desejo tão claro assim  de tê-la...?

Se encontro os seus olhos tão gelados,
Se não noto um sentir na sua fala,
Se não sou mais que alguém que ela conhece,
Sem nenhum, sem qualquer alumbramento?


2013


LUCIANA

Hoje terei Luciana:
não importa com quantos homens
se deite a cada semana.
Mas hoje será só minha,
como se então nos quiséssemos
como nada se quer no mundo.

Mas hoje terei Luciana.
não ligo se no outro dia
se deite co'alguém que não eu.
Pois hoje eu quero encará-la
qual fosse à maior das dádivas:
ai (!), como eu desejo essa moça(!),
que me causa frissons, arrepios!

Terei Luciana no leito,
lamberei o seu corpo de todo:
as pernas magras e pálidas,
roliças e tão desejadas,
que exibe em seus minivestidos
de tão generosos decotes.

Sentirei seus aromas de fêmea
e todos os seus paladares:
da nuca de potra no cio,
da boca, dos lábios, saliva,
dos seios, narinas, ouvidos,
de toda cavidade que tem.

Não ligo se um outro sujeito
se esmere em cheirá-la amanhã,
mas hoje a mulher é só minha,
princesa encantada dos sonhos
por uma noite somente.

Mas hoje eu a quero demais
e a amo bem mais do que a mim,
porque matará minha sede
de entrar no seu corpo esguio
olhando seus olhos lânguidos
e sua expressão de luxúria.

Eu quero lhe ouvir os gemidos,
amá-la de todos os jeitos,
beijá-la por longos momentos,
pois hoje arderei qual menino
em sua primeira entre as noites,
esquecendo o mundo ao redor,
resumindo o mundo a nós dois.


2013

NÃO SOFRAS POR ELA

Não, amigo, não sofras mais por ela,
Não permitas à alma que se apague
Nem desejes a morte como aos céus.
Não, amigo, não lhe sofras a ausência agora mais,
Porque muito possivelmente, meu amigo,
Enquanto choras, ela geme em mil prazeres,
Tendo agora um vil sujeito nas entranhas
Do corpo que pensavas que era teu.

Não destruas a ti, meu caro amigo,
Se ela vive a construir dias de festa,
Relações iniciadas em bodegas,
Entre vinhos, cachaças e vermutes;
Se esqueceu-se até de que tu existes,
Se te tem um desprezo que é tamanho,
Se o sofrer do teu peito é coisa vã.

2013


NÃO ME FUJAS

Se eu te vir continuar a fugir-me como fazes,
te despirei com meus poemas, como um macho enlouquecido
a te rasgar as roupas íntimas e amarras do desejo.

Te beijarei num doce verbo de luxúria
como se fosse o enamorado mais romântico
a te fazer juras de amor sob o luar.

Decifrarei teus sentimentos em meus cantos,
como se olhasse nos teus olhos e enxergasse
A tua alma tão despida para mim,

Te deixarei corada ao perceber na tua fala
as tuas mais ocultas  e quentes sensações

E então farei que me confesses toda a confusão
e todo sentimento que te toca o peito frágil,
tão carente dos afetos enlevantes, inefáveis
de que todo ser vivente necessita qual dos órgãos mais vitais,

E induzirei a que tu fales como se cantasses
as palavras mais bonitas dos amores tão infindos,
tão imensos como arroubos que atravessam anos, vidas,
os milênios, os percalços, as idades, os astrais, as gerações.

2013


VALQUÍRIA

Quando avistei você, que vinha ao longe,
Imaginei, de tolo, era a esperança que chegava:
A bela fada, pitonisa dos presságios magníficos:
Ah, que achava que era um tempo alvorecendo...!
Que era festa, orgasmo, dança e lira ao mesmo tempo.

Não sabia quão nocivo o fundo apego me seria:
Profusão de mágoas, de desgostos, desenganos,
Garoa tão noturna e tão entristecida de silêncio,
Violino mais plangente gerando puro pranto.
Não sabia, era valquíria, uirara, era ninfa, era sereia
Com seu dom nefasto de fazer sofrer intensamente.

2013